quinta-feira, 11 de junho de 2015

FCPorto 2014/2015 - Rescaldo - O miolo

Vamos então à análise ao trabalho de Lopetegui. Considero que a maior parte das críticas que vejo fazer a Lopetegui por parte de portistas fazem sentido. Posso não concordar, mas não me parecem infundadas. Apresento uma lista das mais vulgares ordenadas pela frequência com que as tenho ouvido:
1ª - Rotatividade exagerada no início da temporada;
2ª - Desconhecimento do futebol português;
3ª - Inexperiência para este nível de exigência;
4ª - Más opções;
5ª - Feitio truculento e demasiado nervosismo no banco;

Diria que as três primeiras críticas aparecem sempre relacionadas. A segunda e a terceira são factos. Se foram determinantes? Sim e não. Por um lado não acho que tenha sido a inexperiência e falta de conhecimento, as causas  da rotatividade. Tal como referi no anterior artigo, na minha opinião, a rotatividade é fruto de uma tentativa de legitimação a revolução efectuada no plantel. Trouxemos muita gente nova porque precisávamos de ter segundas linhas de valor próximo da primeira equipa. Se considerámos que têm valor, temos de os pôr a jogar sem temer perdas de rendimento. O problema é que isto funciona se estivermos perante um esquema de jogo consolidado. E isso levou tempo. Aqui sim, a inexperiência de julgar que podemos efectuar uma revolução com efeitos imediatos. Não ouso afirmar que essa efeméride não tenha acontecido, mas era difícil. Tínhamos de contar com os adversários directos e com a estabilidade de plantel de um e com estabilidade técnica de outro. Tínhamos de contar com factores extra como as arbitragens do início da temporada, os sorteios, os relvados. Acho que apesar do défice de experiência e conhecimento, tínhamos treinador e condições para construir uma equipa ganhadora. Mas houve ousadia a mais, sendo essa fruto de inexperiência.

Quanto a feitio, direi que não é o perfil que mais me agrade num treinador do FCPorto, mas não consigo relacionar isso com o rendimento da equipa. Até porque já tivemos treinadores ganhadores de todos os feitios. Para mim não teve qualquer influência. Quanto a más opções. É uma eterna luta dos 'treinadores de bancada' e que acaba por ser o 'sal' do futebol. Ninguém poderá saber o que acontecia se o Adrian fica no banco contra o Sporting, se o Ricardo tem jogado de início em Munique, tal como o Quaresma na Luz. Para mim são erros mas também tivemos apostas inesperadas que surtiram efeito como a de Evandro contra o Sporting ou a da titularidade de Marcano na segunda volta (que eu ainda não engoli) e a aposta no precoce Ruben Neves. De uma maneira geral, acho que o treinador teve boas opções. Direi mais. A maior parte dos jogadores evoluiu com Lopetegui e isso, para mim, é mais importante que alguns erros de casting ou o mau feitio.

Por falar em 'treinadores de bancada' chego finalmente ao ponto. Tenho ouvido muitas críticas mas não  me parece que esteja a ser tido em consideração o maior problema que eu encontro: o modelo de jogo. Para mim é a maior crítica que lhe aponto. Lopetegui é um treinador de ideias fortes e conseguiu implementá-las. Isso é fundamental para conquistar um grupo. Hoje em dia, pouco interessa um treinador com autoridade e com discurso forte se não tiver uma sustentação técnica e táctica forte. Os jogadores percebem isso. Dou sempre o exemplo negativo de Scolari. O contrário também se aplica e poderei dar o exemplo da nossa aposta falhada no ano passado: Paulo Fonseca. Os resultados extra-FCPorto indicam que o Paulo é bom o que me faz concluir, precipitadamente ou não, que o problema será ao nível da liderança/discurso. Nesse aspecto considero Lopetegui um treinador completo mas não concordo com o modelo. Quando anunciaram a contratação, depois de umas horas de pânico, comecei a acreditar que nos poderíamos aproximar do futebol da selecção espanhola que, no fundo, é decalcado do modelo do Barcelona, clube que tanto aprecio. De facto, temos pressão sobre o adversário e temos posse... Mas ter a bola não basta. Já no tempo de Vitor Pereira apontava esta crítica. Nessa altura parecia-me que tínhamos bola como estratégia de controlo do adversário. Não necessariamente como estratégia ofensiva, porque os jogadores chave nunca se desposicionavam. Não gosto, mas a verdade é que internamente funcionava e perdemos um jogo em dois anos, o que é incrível. O esquema de Lopetegui é mais próximo do de Guardiola e do do Barça. A posse não é uma estratégia defensiva mas é antes um engodo. Assumimos que o adversário se desposiciona mais facilmente quando passa muitos minutos 'a cheirar' a bola e que a impaciência, que se cria nesses momentos, nos cria espaços e duelos individuais que nos favorecem.  Até aqui tudo bem. O problema é o aproveitamento do miolo. Num esquema de Guardiola a bola entra e sai consecutivamente. Tem-se posse de bola onde é mais difícil de jogar e muito mais difícil de defender. Na zona onde só se joga com um toque e com constantes mudanças de posicionamento. Lopetegui aposta mais no passe longo. Para quem duvida trago na imagem uma comparação entre os 'heatmaps' do FCPorto, nos seus melhores jogos da época na Champions, um jogo do Barcelona e um do Guardiola. Reparem como a nossa posse de bola é distinta. É recuada e lateralizada. Já o Barcelona, numa final europeia, apesar de ter estado a ganhar a maior parte do tempo consegue posicionar-se maioritária e consistentemente no meio-campo ofensivo. O miolo é explorado e não sobrevoado. Assim, os problemas surgem de todo lado e não apenas da alas. Estou a imaginar a planificação de qualquer adversário do FCPorto nomeadamente a de Jorge Jesus. Bloco baixo e reforço das alas defensivas. Não será fácil marcar golos mas se o objectivo é não sofrer... A evolução da equipa passará por um melhor aproveitamento do miolo e dos jogadores que melhor decidem nessa zona. Obviamente que estou a falar de Quintero!

Perante isto torna-se mais difícil perceber que eu aqui defenda que Lopetegui deve continuar. De facto eu acho que sim. Por dois motivos. Primeiro porque defendo que os treinadores têm de ter tempo para mostrar valor. É das práticas de gestão que mais aprecio no nosso Presidente. Depois porque me parece que em todos estes aspectos que critico,  Lopetegui tem vindo a evoluir e que ele demonstra capacidade para aprender com erros. A própria equipa demonstrou capacidade de evolução ao longo da temporada tendo sucumbido já perto do final perante uma desvantagem curta de três pontos e perante uma derrota traumática frente a um colosso do futebol mundial que é o Bayern.

Segue-se uma análise aos jogadores.

6 comentários:

Mirone disse...

Será que o Quintero vai dar alguma coisa? Já perdi a esperança...

Esta temporada, principalmente na 2ª volta esteve extremamente desmotivado. Quando era chamado do aquecimento vinha sempre a passo.

É pena não aproveitarmos um talento destes. Os treinadores não gostam de jogadores que não sabem defender, apreciam sempre mais os Jorginhos que os Diegos.

Lápis Azul e Branco disse...

A minha visão relativa à época que agora terminou sobre:

a) o trabalho de Lopetegui

b)o plantel

Saudações portistas!

Anónimo disse...

Concordo com muitas coisas.
Havera alquem que realmente pensa que o Marcano e melhor que o Indi? Vantagens que imagino possa ter para o treinador sao: foi ele que o escolheu e e espanhol. Ta a ganhar uns trocos e a apostar num jogador da sua confianca??! Quase todos os treinadores o fazem, o problema nesta situacao e que os jogadores nao sao de nivel semelhante. O Indi e realmente muito melhor que o Marcano!
O Lopetegui tem como ideia ofensiva principal a circulacao de bola (demasiado!) por tras ate surgir uma de tres situacoes:
a) o def central fazer um passe longo para o extremo do lado contrario e este assumir o 1x1. (Sera que o Indi se recusava a a cumprir este principio?) Para ser eficaz exige-se perfeicao no passe e na recepcao, algo muito dificil de executar com velocidade de forma a aproveitar a situacao. Como se viu ao longo da epoca, na maior parte das vezes esta "perfeicao" nao ocorreu e a equipa estava "partida" com os adversarios a sair em contra ataque.
Ideia ma, a ser mal executada com os adversarios a explorar esta debilidade e NUNCA se alterou!
b) o extremo do lado da bola fazer um movimento de aproximacao para receber no pe e o medio centro do mesmo lado a fazer a diagonal longa nas costas do lateral que acompanha o extremo, com a bola preferencialmente a cair no espaco para o medio. Mesmo saindo bem (no Dragao contra o Benfica) o que acontece e que o medio se encontra a correr numa diagonal para fora! Mesmo que o adversario de desposicione, tem quase sempre tempo para se reorganizar antes que o Porto tirasse vantagem!
Ideia ma, muitas vezes bem executada, mas com que reais vantagens? Quantos golos surgiram destas situacoes??
c) Def central ou lateral passar a bola diretamente para o Jackson receber de costas. Este a tabelar com o medio centro ou rodar e lancar ele proprio o extremo que aproveita em diagonal o espaco nas costas do defesa central que o acompanhou (Tello principalmente bem sucedido varias vezes). No alto nivel pouquissimas equipas/jogadores perdem posicao para acompanhar o homem. Quase todos se preocupam mais com o Espaco, dai que este principio de jogo so resultou com equipas de menor nivel qualitativo.

Ideias muito basicas que provavelmente resultarao em contextos de menor qualidade (camadas jovens ou ligas inferiores). Dai que o Porto tenha falhado em muitos jogos "grandes". Nivel do adversario mais elevado, nao caem em engodos tao simplistas e aproveitaram.

O Lopetegui, ao contrario de muitos treinadores de "topo" ate sabe o que quer e conseguiu (a custa de uma espanholizacao do balneario?) que a maioria dos jogadores tentasse interpretar as suas ideias. Sera por isto que a direcao vai apostar novamente nele?
Nao houve falta de empenho dos jogadores!
O que aonteceu nao foi a ausencia de ideias, mas sim a ausencia de ideias de qualidade!
O problema foram as ideias de merda e a teimosia em nao as alterar!

Tanto uma como outra seriam razoes mais que suficientes para se trocar de treinador.

(Desculpem a falta de acentuacao mas este teclado ta a precisar de reforma...)

reine margot disse...

Anónimo da 1 da tarde,
deixe-me ver se consigo entender o que pensa:
Perguntas:
- Será que o Indi se recusava a rematar ?
- Será que o treinador prefere o Marcano porque está a ganhar uns trocos com ele?
Conclusão:
O Indi é muito melhor que o Marcano!

Ah, isto deve ser para pessoas inteligentes entenderem... eu, nem um curso superior me ajuda!
Fiquei a léguas...

Depois, tudo o que eram ações ofensivas, eram más, mal calculadas, mal desenhadas, e mal executadas; todas deixavam a equipe desequilibrada e nunca nada foi retificado...
pergunto-me: - mas será que o porto marcou golos? ou só sofreu ?
segundo me lembro, até às últimas jornadas em que tudo ficou perdido, o porto marcou mais e sofreu menos ...

a seguir despedir o treinador é um passo ! Aproveita-se para falar mais uma vez de espanholização, e pumba: malas aviadas!

- ok, confirma-se que o que pensa é só para pessoas superiormente inteligentes!


ou, por outro lado, você talvez seja um enviado de outro planeta; de um planeta vermelhusco...

Anónimo disse...

Normal no futebol (e nao so) escolher pessoas da nossa confianca para cumprir determinada funcao. Nao acho errado (bem pelo contrario), contratar jogadores com base nisto. O problema e quando se privilegiam estes quando ha outros de mais qualidade no plantel. O Marcano perde posicao demasiadas vezes. E atraido pelo movimento do pta de lanca adversario e nao consegue manter a linha defensiva coesa. E de confianca no sentido em que nao inventa, da tudo, joga simples, mas na minha opiniao demasiado simplista para uma equipa como o Porto (assim como Maicon). Por vezes o defesa enquanto intercepta pode colocar a bola num colega de equipa, mas ele limita-se invariavelmente a cortar a bola nao a tentando manter jogavel. Muitas vezes ganha o lance apenas para vermos a bola novamente num adversario.
Como vimos, o Indi nao arrisca no passe longo (escola holandesa). Nao faz os tais passes longos na diagonal para o extremo direito. Pode ser por falta de confianca nele proprio, ou porque realmente prefere optar pelo passe curto num medio (na minha opiniao o mais correcto). Tal como disse no meu comentario anterior, talvez tenha sido por estes motivos que ele perdeu o lugar.

Tambem no meu comentario anterior eu falei de qualidades do Lopetegui. Sabe o que quer e conseguiu que os jogadores o tentassem cumprir, o que ja e bom. Citando alguem mais inteligente que eu "mais vale uma ideia ma em que os jogadores acreditam do que uma excelente ideia em que os jogadores nao acreditam".

O problema e que continuam a ser mas ideias. E quando se defrontam adversarios de qualidade, com ideias "melhores" entao fica mais dificil ganhar...

Acho que todos concordamos que no plantel nao faltava qualidade individual. Por esta qualidade e porque os jogadores tentaram de facto cumprir os principios de jogo preconizados pelo treinador, marcamos bastantes golos e sofremos menos do que muitos adversarios e quase dava para o Campeonato.

Podemos falar nos arbitros ou na sorte/azar, ou podemos tentar encontrar razoes objectivas.
Admito que ao falar de "espanholizacao" ou de "ganhar uns trocos" entrei no campo da subjectividade, mas talvez ate nem esteja muito longe da realidade.
Na minha opiniao, nao fomos campeoes porque o modelo de jogo que o lopetegui implementou no Porto era pobre e com falta de qualidade.

Para mim nao ha pior do que perder no Dragao contra o benfica e se tivessemos ganho esse jogo...
Pode nao concordar com a minha interpretacao, mas vermelho nao sou. Ja me chamaram muitas coisas mas disso nunca :)

prata disse...

A proposito do aproveitamento do miolo, não temos apenas quintero. A contratação de um jogador como Bueno pode ser um sinal da intenção de evolução nesse capítulo. Estou a pensar que o Lopes tentará mais vezes a táctica do Bate com Bueno no lugar de Adrian.