quinta-feira, 29 de maio de 2014

Sete pecados capitais do FCPorto 2013/2014 – O defeso





Tal como referi no último artigo, a certa altura criou-se uma corrente que dizia que o problema era de jogadores. Faltavam jogadores que dessem à equipa a possibilidade de transformar um sistema medíocre num sistema eficaz. Paulo Fonseca estava seguríssimo e faltava uma opção desequilibradora nas alas, faltava um verdadeiro 10 que fizesse o que Lucho ‘alegadamente’ não fazia e faltava um patrão para a defesa que acumulava erros. Tal implicava obviamente a manutenção dos jogadores nucleares da equipa. O objetivo era salvar a época com o título nacional que estava ao alcance e teria de ser feito um esforço extra para tal.

Logo à partida, de acordo com a estratégia descrita por Angelino Ferreira de crescente redução de gastos e de evolução sustentada da redução da dívida e dos gastos que dela resultam, tornava-se difícil imaginar uma contratação cara e sonante. Se era para recusar todas as propostas por Jackson, Mangala e Fernando… 

Por um lado, não se vendeu ninguém, tendo saído Angelino aparentemente por causa disso. Por outro, substituímos um salário elevado por outro (Lucho por Quaresma) e um elevado por outro menor (Otamendi por Abdoulaye).  Assim, tivemos duas entradas em Janeiro e uma saída. Chegou o ala de qualidade extra e regressou Abdoulaye, muito elogiado pelo Presidente em entrevista ao Porto Canal. Saiu Lucho. O resto teria de se resolver com o plantel existente. Logo aqui dois movimentos contraditórios. Por um lado uma aposta na qualidade e num jogador de créditos firmados para a ala e, por outro, uma opção de risco para a defesa com um jogador que nada provou e para outra para o meio campo. Os jogadores em quem se apostou para substituir Lucho tardavam em provar valor. Uma aposta segura contra duas de risco.

Além disso a própria contratação segura tinha algum risco. Quaresma tem aquele extra de qualidade de que todas as equipas precisam, mas nunca foi um jogador fácil de domar e muito menos quando a liderança técnica não é forte. Além disso, é um jogador para render mais uma ou duas épocas o que tornava a contratação arriscada e desadequada ao nosso modelo de valorização constante do plantel para obtenção de mais-valias. Não costumo compreender estas contratações. Lucho foi uma excepção de sucesso mas, mesmo assim, ‘torci o nariz’ a Quaresma. Julgo que, dadas as circunstâncias e para minha surpresa, Quaresma até trouxe atributos que beneficiaram a equipa e que evitaram um descalabro ainda maior. Não entro nesta corrente, mal intencionada, que dizia que ele traz qualidade mas destrói a equipa. O objectivo era tirá-lo do Mundial e funcionou. Mas confesso que não percebi esta obsessão com o ala. Se a equipa não jogava o suficiente, era por trazermos um jogador que resolve sozinho que se resolveria os outros problemas? Era óbvio que, à primeira vez que Quaresma não resolvesse, viria o resultado negativo. Além disso, se o plantel tinha soluções que chegue para o meio-campo porquê insistir num sistema de alas? Vejam se o Atlético de Madrid, a equipa surpresa da temporada e com o melhor sistema de jogo, jogava com alas? Não digo que teríamos de jogar assim, mas quero apenas dar um exemplo de como o Treinador e o seu sistema devem aproveitar o plantel que existe e não esperar pelos retoques do defeso.

Não me quero alongar muito sobre a opção de troca de Otamendi por Abdoulaye. Posso apenas dizer que é um erro enorme de julgamento de potencial. É raro, mas neste caso os adeptos concluíram bem cedo que a solução era desastrosa e tinham toda a razão. Numa defesa que acumula erros, substituir o único que tem características de ‘patrão’ por um jovem sem provas dadas e que está convencido erradamente que é o Beckenbauer africano, só poderia dar asneira. Por muito que Otamendi não estivesse a fazer uma boa época e por muito que tivesse mercado, não se percebe.


Quanto a Lucho, Desenvolverei em maior pormenor no próximo artigo.


quarta-feira, 28 de maio de 2014

III Encontro da Bluegosfera...

Dia 7 de Junho no Auditório da Biblioteca Municipal de Espinho, mais uma vez, "Blueggers" de todo o mundo reúnem-se para falar do Futebol Clube do Porto, de Portismo, dos Problemas do Passado e Desafios do Futuro!

Faz-te ouvir no III Encontro da Bluegosfera!

Fica atento a todas as novidades a ser lançadas durante os próximos dias.

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segunda-feira, 26 de maio de 2014

Sete pecados capitais do FCPorto 2013/2014 – A pressão



Não quis abordar grandes questões técnicas e tácticas no post relativo à escolha de Paulo Fonseca. Nesse contexto queria dar alguma ênfase no risco da escolha e não uma avaliação ao trabalho que fez. No entanto, houve um grande retrocesso na nossa forma de jogar que considero inexplicável e que se verificou ao nível da pressão que aplicámos aos nossos adversários na conquista da bola.
Fala-se muito em jogar à FCPorto. Os adversários até vêm com os exemplos que lhes convém como o Bruno Alves, o Paulinho, etc., querendo sobrepôr a violência à agressividade positiva. Eu confesso que começo a tremer quando percebo que o FCPorto não pressiona convenientemente o adversário. Quando não tenta forçar o erro do adversário de uma forma consistente. É logo um sinal de alguma sobranceria, que não me agrada. É tão mais cómodo correr com a bola do que sem ela… É óbvio que temos melhor equipa do que a maior parte dos adversários que defrontamos, mas temos que o provar constantemente. Quando não queremos recuperar a bola rapidamente e em zonas perigosas é logo sinal de que não estamos com aquela vontade de vencer que nos é habitual. E vi muito disso este ano. É também o principal factor que contribuiu para a bipolaridade exibicional que demonstrámos dentro do próprio jogo. 

Por si só, o tempo para pensar que damos aos nossos adversários é nocivo e perigoso. Pode ter a ver com factores anímicos e motivacionais e isso bastaria para termos problemas. Mas houve adicionalmente erros tácticos que potenciaram o fenómeno. Leigo que sou, passarei a explicar o meu ponto de vista. A tão falada utilização do duplo pivot e do Lucho a 10, foi muito discutida em termos de desenho ofensivo, mas eu acho que o problema não se punha tanto aí. O problema  era a distância entre a linha que pressionava a saída do adversário e a que protegia a nossa defesa. Duas linhas quase completamente alheadas uma da outra. Dito assim até parece irreal, mas isto aconteceu muitas vezes e foi dos fenómenos que mais contribuíram para as trapalhadas defensivas que se foram repetindo em jogadores habitualmente serenos e ‘certinhos’. Em suma, ultrapassada a primeira linha tínhamos problemas. Perguntarão se o Paulo não via isto? Viu e, como muitos adeptos, achou que o problema era dos jogadores e não do desenho. Quantas vezes vimos Jackson a desgastar-se a correr atrás da bola pressionando sozinho os dois defesas centrais adversários? Tem lógica? E depois ainda se queixam de ele falhar golos. Defensivamente trabalha muito mas este ano trabalhou mal e por culpa da orientação técnica.

Aceitarei sempre que um treinador desenvolva a equipa de acordo com as suas ideias e de acordo com o que ele acha que são as potencialidades e limitações do plantel. Independentemente disso, não aceito que os adversários pressionem mais do que nós. Que nos forcem mais erros que aqueles que nós provocamos neles. O novo treinador terá de começar por aí o seu trabalho de pré-época. Há que readquirir práticas de recuperação rápida e eficaz da bola.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Coerência



Abdoulaye joga na imprensa como joga em campo.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Sete pecados capitais do FCPorto 2013/2014 – O modelo



Segundo capítulo da saga, segundo pecado capital identificado. Na minha opinião o modelo desportivo tem de ser ajustado. De uma forma simplista, o esquema é desenhado em três pilares fundamentais: scouting poderoso e aposta na relação com empresários com poder em mercados específicos; valorização dos ativos adquiridos pela sua inclusão numa equipa com rotinas de vitória, com títulos e com exposição na montra europeia; e obtenção de mais valias na venda dos jogadores para Ligas mais poderosas.

Não está em causa a totalidade do modelo. A crise não fez abrandar as propostas faraónicas por jogadores e não será um ano sem títulos que afastará os compradores. O problema está no scouting e nas contratações. Mercados anteriormente acessíveis como o brasileiro e argentino, apresentam agora condições económicas que tornam qualquer talento precoce identificado num negócio demasiado oneroso. E não só! A confusão instalada nas propriedades dos passes torna absolutamente impossível o nosso habitual antecipação e abordagem discreta, criando ainda mais entraves negociais. A praga tem-se alastrado a todo o mercado sul-americano e não é por mudarmos as baterias para a Colômbia ou para o México que vamos fugir à tendência. São jogadores bons mas cada vez mais caros e, com a co-propriedades de passes,  com o inflacionamento dos mercados, começamos a ter mais-valias cada vez menores. Lembrem-se lá do último jogador adquirido no mercado sul-americano contratado por menos de 4-5 milhões de euros? Fernando? É uma espiral que tornará o modelo insustentável a médio prazo, para clubes que não têm acesso a petrodólares ou perdões de dívida na Banca.

Percebo, no entanto, que já se começou a inverter o ciclo e que, já este ano, procurámos não ‘pôr os ovos todos no mesmo cesto’. Temos tentado apostar mais na contratação de miúdos para desenvolver nas camadas jovens e equipa B, nomeadamente no mercado africano, por exemplo, o doloroso Atsu e o inenarrável Abbdoulaye. Percebemos também que houve uma aposta reforçada no mercado nacional com Ricardo, Licá, Josué, Tiago Rodrigues e Carlos Eduardo (brasleiro mas o contexto é diferente). Mas o grosso do investimento está no mercado Sul-americano. É também aí que está o maior risco. Quanto mais caro, mais arriscado… 

Como temo que, perante a época que fizemos se tenha a tentação de voltar a esses caminhos e contratar o novo Lucho ou o novo Hulk por 7-8 milhões cada um, proponho um ajuste ao modelo. Já temos estrangeiros de qualidade no plantel e poderemos até chegar à conclusão de que um FCPorto com mais portistas e mais portugueses, não será nada inferior ao do FCPorto que temos visto nos últimos anos. Melhor que o de este ano não será difícil…

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Sete pecados capitais do FCPorto 2013/2014 – O piloto automático




Começo hoje uma serie de sete artigos com aqueles que, na minha pouco humilde opinião e com os dados que tenho, considero terem sido os grandes erros que levaram à nossa má época. Má, catastrófica, o que lhe queiram chamar. São sete por causa das referências históricas, religiosas e sobretudo numa referência ao fantástico filme de David Fincher. Poderiam ser cinco resumidos ou trinta, detalhados ponto por ponto.

Passo a listar os pecados: 1) o piloto automático; 2) o modelo; 3) a pressão; 4) o defeso; 5) ‘Luchúria’; 6) o interino; 7) o processo.

Vamos ao primeiro: o piloto automático.

À medida que os títulos se acumulam vamos acrescentando ao endeusamento e ao culto de personalidade do Presidente Pinto da Costa. Merecido! É sempre fácil, perante a dúvida sobre as suas decisões, fazermos um exercício de reconhecimento do acumular de méritos passados. Exemplo: isto parece arriscado mas ele costuma ter o 'toque de midas'... Isso torna-nos acríticos e, para cabeças pensantes, torna-se frustrante.  Mas há esta ideia reinante de que a estrutura se sobrepõe à orientação técnica. É como se assumíssemos que qualquer um conseguia ser campeão neste FCPorto. Ouvi muitas vezes: até Vitor Pereira consegue ser campeão… É a ideia de que o treinador não deve inventar muito, uma espécie de piloto automático… Errado! Provou-se este ano que não é qualquer um que pega nesta equipa e não podemos ser sempre o laboratório de estágio para treinadores em ascensão. Sabemos agora que, depois do risco na escolha de Villas-Boas e de Vitor Pereira, fazia sentido outro tipo de perfil. Agora ainda mais.

Todos desconfiamos que o processo de escolha de Paulo Fonseca não terá sido fácil. São até convenientes as várias histórias que se contam, agora que se sabemos os resultados. Fala-se de pré-acordos não cumpridos pelo FCPorto com Leonardo Jardim, de novo assédio a Jorge Jesus, e da existência por fim de duas alternativas preteridas: uma brasileira e outra com um perfil semelhante ao de Paulo Fonseca e é que até um treinador que continua na moda. Interesso-me mais pela estratégia que se escolheu naquela altura: pela terceira vez consecutiva o risco. E julgo que se sobrevalorizou o poder da estrutura e, já agora, o impacto da qualidade do plantel nos dois títulos anteriores.

Sabemos agora que o esquema de posse de bola desenvolvido ao limite por Vitor Pereira protegia a defesa das trapalhadas que vimos este ano. Marcávamos menos golos mas controlávamos os ímpetos dos adversários de forma a não os sofrer. Não vou na onda dos que dizem que os campeonatos foram perdidos por terceiro. É falacioso. Goste-se ou não, e eu confesso que não gosto, havia qualidade, noção do plantel e ideias próprias na equipa técnica.

A escolha de Paulo Fonseca falhou em toda a linha. O Presidente arriscou pela terceira vez e não só não conseguiu um treinador que levasse a equipa ao Tetra, como não conseguiu sequer evitar o seu despedimento. Tornou-se demasiado claro que não havia um único jogador que mostrasse melhor rendimento do que em anos anteriores e que os reforços tardavam em mostrar qualidade. Sentia-se que isso era fruto de uma grande intranquilidade e de falta de confiança. Mais que os triângulos e os 4-3-3’s, esse é sempre o sintoma de que há que mudar.

Esperemos que este ano se valorize mais a liderança técnica da equipa.

PS: Este texto foi escrito antes da escolha de Lopetegui.