quinta-feira, 30 de maio de 2019

Época 18/19 - Sérgio Conceição


Iniciámos o nosso habitual rescaldo de época pelo treinador. Num clube em que o Presidente é uma entidade absolutamente intocável, a análise ao sucesso de uma época tende a aproximar-se da análise ao desempenho do treinador. Já sabemos que Pinto da Costa está num patamar em que, o que é elogiável é para ele e o que é criticável é culpa da SAD, essa entidade centralizadora de tudo o que de mau se passa ao nível da gestão. Sendo assim, temos de avaliar o desempenho da equipa e vamos associá-lo apenas a Sérgio Conceição. Ele já cá está há dois anos e já deve estar habituado.

Tenho lido demasiadas análises demasiado críticas ao desempenho da equipa e sobretudo de Conceição. Conceição é uma figura polarizadora por natureza. Só não esperava que fosse tão polarizadora entre portistas. Parece até que, em certos casos, perante este final de época, transitámos entre um endeusamento e o asno em poucos meses. 

Devemos então perguntar claramente: o que mudou? Eu diria que mudou pouco. Vamos por tópicos:

Resultados - Perdemos o campeonato, mas tivemos um desempenho pontual muito próximo. Nas restantes competições fizemos melhor e nas Taças demonstrámos em campo que tínhamos argumentos para as ganhar. Na Champions tivemos dos melhores desempenhos da história do Clube, desportivamente e financeiramente.

Modelo de jogo - Igual. Jogámos da mesma maneira e com os mesmos resultados expressos na pontuação, na quantidade de golos marcados e sofridos e até noutras estatísticas com posse de bola, tipos de passes, nº de dribles, etc. Tudo ao nível do ano anterior. Apostámos muito em recuperar a bola em terrenos avançados, em ataques rápidos, em lançamentos em profundidade para Marega e na utilização dos corredores em alternativa. Defensivamente continuamos a ser muito fortes e a permitir muito poucos remates e oportunidades a qualquer adversário que não seja o Liverpool. Tudo na mesma.

Plantel - Semelhante. Saíram Ricardo Pereira e Marcano e entraram Militão, Pepe e Manafá. Substituições sem  impacto decisivo no futebol da equipa. Só Militão chegava para suprir as duas posições. De resto, a defesa continua a ser a nossa zona mais eficaz, mantivemos o meio campo robusto no centro e criativo nas alas e voltámos a ter uma linha de ataque poderosa mas algo perdulária. O espírito de equipa continuou a ser ótimo e de acordo com os melhores exemplos que alguma vez tivemos no clube. Acreditaram até ao último minuto do campeonato e até ao centésimo vigésimo minuto da Taça de Portugal. Não terei a certeza, mas esta equipa deve estar entre as que mais reviravoltas concretizaram numa época. Níveis de crença e sacrifício muito acima da média e muito acima do nosso passado recente.

Ambiente geral - Mais uma vez semelhante. O apoio dos adeptos à equipa manteve-se incondicional. Jogámos em casa em 80% dos estádios do país. Em termos de arbitragem, voltámos a ter um campeonato mais inclinado na ponta final, tal como tinha acontecido no ano anterior, enquanto foi possível. O tratamento da imprensa é imutável há décadas.

Repito: Nada de significativo mudou! Tivemos uma quebra pontual que também tínhamos tido no ano anterior. No limite mudou um jogo que foi o jogo com o Benfica em casa. E podemos ir mais fundo: o que mudou foi o facto de o Marega, na compensação desse jogo, não ter conseguido empurrar para a baliza um lance de golo iminente, a dois metros da linha de golo.

Se não houve mudanças, qual é o problema com Conceição? Todos os que vibraram com os seus feitos na época anterior deveriam estar a desviar-se de qualquer conversa sobre mudanças na equipa técnica. Ouço muitas vezes dizer que jogámos pouco futebol. Mas quais são os parâmetros de avaliação? Jogámos muito futebol e de acordo com o modelo de jogo do treinador a quem confiámos a tarefa de nos devolver à luta por títulos. São os lançamentos longos? É a qualidade da posse de bola? É a nota artística? Proponho uma comparação com os nossos rivais. Nem vou falar do paupérrimo futebol do Sporting que, aos olhos destes tipo de adeptos, deve jogar bem pior que nós. Basta ver estes últimos jogos. Prefiro comparar com o Benfica. Se analisarem a fundo poderão concluir que o sucesso da segunda volta do Benfica resulta, além das polvices, de uma clara aproximação ao modelo de jogo 'fraco' de Conceição. Reparem quantos golos estas duas equipas marcaram a partir de erros forçados nas defesas contrárias. Reparem se os movimentos de Seferofic não são semelhantes aos de Marega. A própria distribuição em campo e o perfil de jogadores é muito semelhante ao nosso. Se chegarem a esta conclusão que eu cheguei vão perceber que ideia de que o FCPorto joga pouco é um paradoxo. Joga tanto ou mais que os seus competidores e joga o que o treinador quer.

Uma crítica aceitável será então uma que se baseie mais em gostos pessoais. Eu próprio gosto mais de outro estilo de futebol, com maior controlo sobre os ímpetos do jogo e sobretudo com mais incorporação de jogadores tecnicamente mais evoluídos. Mas esta não é a ideia de Conceição, já o sabemos há dois anos e até satisfez bastante, na época passada. A questão que coloco aqui é a mesma que colocava há um ano: será que o que eu adoro em Conceição é suficiente para compensar as limitações que lhe aponto? A minha resposta continua a ser um claro 'SIM'. Só podia. Para mim, nada de significativo mudou. Mais que uma equipa do FCPorto com 70% de posse de bola ou um FCPorto com 10 Olivers no onze titular, prefiro uma equipa que respeite a nossa identidade como clube. E este FCPorto, este treinador e estes jogadores têm-no feito consecutivamente nos últimos dois anos.

Perguntarão se não havia espaço para melhorar a equipa do ano anterior? Sem dúvida que sim! E julgo que Conceição conseguiu-o a espaços com a inclusão de jogadores com características diferentes como Oliver ou até com o reposicionamento de jogadores, como foi o caso da utilização de Corona a segundo avançado contra o Liverpool. Tudo situações a estudar bem neste planeamento da próxima época e talvez sejam situações para repetir. 

Sérgio Conceição é o meu treinador e nem devia ser preciso afirmá-lo. Nunca esteve em causa!

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