Duas perguntas surgem de imediato a quem começa a ler este artigo. Qual milagre e o que é que uma personagem do Seinfeld tem a ver com o que quer que seja?
O milagre é simples de descrever. Com esta pré-época, com este calendário, com este jogadores, é praticamente um milagre não estarmos já na Liga Europa e afastados da contenda do título. Já sei que nunca estaríamos longe, mas ninguém nos afasta da luta, por muito que reconheçam que temos um plantel inferior e tenhamos perdido num campo de um adversário directo. A maior prova é a arbitragem do jogo em Alvalade. Os portistas reconhecerão com facilidade que, nos anos anteriores, sobretudo no último, para perder em Alvalade não era preciso sermos roubados indecentemente. Bastava aparecer lá com a nossa melhor equipa... Pois este ano, de facto, a equipa parece bem mais competitiva na prática, do que na teoria. Milagre, digo eu.
Vamos ao George Costanza. Lembrei-me dele e do famoso episódio do 'Opposite George'. George atinge o ponto mais baixo da sua vida e tem uma epifania: «Se todas as decisões que me trouxeram a este ponto estão erradas, a partir de agora terei de fazer o oposto do que me transmitem os meus instintos!». E começou logo por abordar uma miúda desconhecida com aquela tirada de marketing pessoal invertido.
Esta pré-época foi mesmo o oposto do que deveria ser. O oposto do que foi a primeira época de Lopetegui. Todos sabemos o resultado, mas não custa admitir que essa época foi bem preparada. Também tínhamos uma pré-eliminatória da Champions e lembrar-se-ão que o treinador foi apresentado logo em Junho, que lhe foi dado um papel fundamental na construção do plantel, que este foi feito à medida das suas ideias e que as contratações chegaram a tempo. Casemiro chegou ainda na pré-época, e mais tarde, chegaram apenas bons suplentes que foram Aboubakar e Marcano, se não me engano. Até Jackson, renova em plena pré-época tornando mais difícil a sua saída imediata. Todos os jogadores nucleares fizeram a pré-época e apresentámos em Lille uma equipa que espelhou na perfeição o que seria a nossa nova forma de jogar. Bem feito, mas não resultou! Que tal tentar o 'mal feito'? Eis o oposto de todos os instintos de bom planeamento de uma época desportiva:
- Instabilidade no plantel: Construção do plantel arrastou-se durante um longo período de indefinições. Quando chega o central? Quando vendemos o Brahimi, o Aboubakar e o Indi? Contratámos um lateral esquerdo quando temos um jovem promissor e um titular que foi dos melhores na última época? E o Mendes que tem tantos jogadores não mete cá nenhum de jeito? Todas estas perguntas fariam sentido no primeiro mês de pré-época. Na noite do último dia do mercado são apenas assustadoras. Quando se escolheu Nuno Espírito Santo sabia-se que é um treinador especial com um empresário especial que, por onde ele andou colocou sempre muitos jogadores, substituindo-se um pouco às direcção de futebol dos próprios clubes nessas decisões. Pelos vistos, aqui colocou apenas um, João Carlos.
- Instabilidade de rumo - Quem via as entrevistas do Presidente, julgava que iríamos ter um FCPorto mais portista com promoções da equipa B e regressos dos emprestados que Lopetegui fez questão de ostracizar. Dessa linha de pensamento sobram apenas Otávio e André Silva. É de referir ainda que Pinto da Costa se mostrou desiludido com a
estratégia de ter jogadores emprestados na nossa montra e no final do
mercado chegaram dois nessas circunstâncias. E não convem esquecer o que o presidente disse sobre o facto de contratar para Lopetegui jogadores que nem conhecia. Parecia que seria um rumo a abandonar, mas já sabemos que Depoitre, João Carlos são opções de Nuno e só de Nuno. Foi o presidente que nos garantiu. Muita coisa muda em 3 meses...
- Instabilidade técnica - Nuno Espírito Santo começou por preterir Adrian, colocando-o na equipa B para depois o pôr a titular no primeiro jogo de dificuldade máxima. Nesse mesmo jogo, apresenta uma esquema táctico nunca testado na pré-temporada resultando numa entrada em jogo desastrosa. Contratámos recentemente um tipo de 9 que nunca pareceu enquadrável no estilo de jogo que a equipa vem apresentando, sobrando dúvidas sobre a sua real utilidade nesta forma de jogar. Recambiámos Sérgio Oliveira para os Jogos Olímpicos e damos-lhe minutos dias após o seu regresso. Uma serie de incongruências a juntar à falta de opções de um plantel completamente indefinido.
- Instabilidade na comunicação - Temos uma newsletter diária que assumiu por completo a comunicação portista. Perante o que foi sucedendo com o circo de entradas e saídas e testes médicos falhados, etc. temos apenas uma newsletter. E perante o que sucedeu em Alvalade? Temos uma newsletter. Nada de Presidente. Este apenas aparece depois da vitória de Roma, para reclamar de um atrasado mental de um comentador, que é tão fanático que já só incomoda quem quer ser incomodado. Mas sobre a nomeação deste árbitro, o seu desempenho, sobre a relação estranha entre os dirigentes da arbitragem e o Sporting e as suas camadas jovens, nada.
- Instabilidade directiva - Para completar com a 'cereja no topo', instabilidade directiva confirmada pela saída de Antero Henrique, que se sucede à saída menos recente de Angelino Ferreira. Tudo sinais preocupantes. Angelino sai porque não concorda com o rumo económico e Antero sai porque não concorda com o rumo do futebol. O que sobra? É que são dirigentes que estiveram ligados a grandes conquistas e duvido que alguém lhes consiga apontar um pingo de incompetência e de falta de preparação. Se há coisa que sempre tivemos, mesmo em épocas de seca foi coesão directiva. Agora nem isso. Terá caído o nosso mais elogiado pilar, 'a estrutura'?
Perante tudo isto, a equipa está viva e apresenta energia e vontade que não se tinham visto recentemente. Milagre! Até quando?