Vamos então à análise ao trabalho de Lopetegui. Considero que a maior parte das críticas que vejo fazer a Lopetegui por parte de portistas fazem sentido. Posso não concordar, mas não me parecem infundadas. Apresento uma lista das mais vulgares ordenadas pela frequência com que as tenho ouvido:
1ª - Rotatividade exagerada no início da temporada;
2ª - Desconhecimento do futebol português;
3ª - Inexperiência para este nível de exigência;
4ª - Más opções;
5ª - Feitio truculento e demasiado nervosismo no banco;
Diria que as três primeiras críticas aparecem sempre relacionadas. A segunda e a terceira são factos. Se foram determinantes? Sim e não. Por um lado não acho que tenha sido a inexperiência e falta de conhecimento, as causas da rotatividade. Tal como referi no anterior artigo, na minha opinião, a rotatividade é fruto de uma tentativa de legitimação a revolução efectuada no plantel. Trouxemos muita gente nova porque precisávamos de ter segundas linhas de valor próximo da primeira equipa. Se considerámos que têm valor, temos de os pôr a jogar sem temer perdas de rendimento. O problema é que isto funciona se estivermos perante um esquema de jogo consolidado. E isso levou tempo. Aqui sim, a inexperiência de julgar que podemos efectuar uma revolução com efeitos imediatos. Não ouso afirmar que essa efeméride não tenha acontecido, mas era difícil. Tínhamos de contar com os adversários directos e com a estabilidade de plantel de um e com estabilidade técnica de outro. Tínhamos de contar com factores extra como as arbitragens do início da temporada, os sorteios, os relvados. Acho que apesar do défice de experiência e conhecimento, tínhamos treinador e condições para construir uma equipa ganhadora. Mas houve ousadia a mais, sendo essa fruto de inexperiência.
Quanto a feitio, direi que não é o perfil que mais me agrade num treinador do FCPorto, mas não consigo relacionar isso com o rendimento da equipa. Até porque já tivemos treinadores ganhadores de todos os feitios. Para mim não teve qualquer influência. Quanto a más opções. É uma eterna luta dos 'treinadores de bancada' e que acaba por ser o 'sal' do futebol. Ninguém poderá saber o que acontecia se o Adrian fica no banco contra o Sporting, se o Ricardo tem jogado de início em Munique, tal como o Quaresma na Luz. Para mim são erros mas também tivemos apostas inesperadas que surtiram efeito como a de Evandro contra o Sporting ou a da titularidade de Marcano na segunda volta (que eu ainda não engoli) e a aposta no precoce Ruben Neves. De uma maneira geral, acho que o treinador teve boas opções. Direi mais. A maior parte dos jogadores evoluiu com Lopetegui e isso, para mim, é mais importante que alguns erros de casting ou o mau feitio.
Por falar em 'treinadores de bancada' chego finalmente ao ponto. Tenho ouvido muitas críticas mas não me parece que esteja a ser tido em consideração o maior problema que eu encontro: o modelo de jogo. Para mim é a maior crítica que lhe aponto. Lopetegui é um treinador de ideias fortes e conseguiu implementá-las. Isso é fundamental para conquistar um grupo. Hoje em dia, pouco interessa um treinador com autoridade e com discurso forte se não tiver uma sustentação técnica e táctica forte. Os jogadores percebem isso. Dou sempre o exemplo negativo de Scolari. O contrário também se aplica e poderei dar o exemplo da nossa aposta falhada no ano passado: Paulo Fonseca. Os resultados extra-FCPorto indicam que o Paulo é bom o que me faz concluir, precipitadamente ou não, que o problema será ao nível da liderança/discurso. Nesse aspecto considero Lopetegui um treinador completo mas não concordo com o modelo. Quando anunciaram a contratação, depois de umas horas de pânico, comecei a acreditar que nos poderíamos aproximar do futebol da selecção espanhola que, no fundo, é decalcado do modelo do Barcelona, clube que tanto aprecio. De facto, temos pressão sobre o adversário e temos posse... Mas ter a bola não basta. Já no tempo de Vitor Pereira apontava esta crítica. Nessa altura parecia-me que tínhamos bola como estratégia de controlo do adversário. Não necessariamente como estratégia ofensiva, porque os jogadores chave nunca se desposicionavam. Não gosto, mas a verdade é que internamente funcionava e perdemos um jogo em dois anos, o que é incrível. O esquema de Lopetegui é mais próximo do de Guardiola e do do Barça. A posse não é uma estratégia defensiva mas é antes um engodo. Assumimos que o adversário se desposiciona mais facilmente quando passa muitos minutos 'a cheirar' a bola e que a impaciência, que se cria nesses momentos, nos cria espaços e duelos individuais que nos favorecem. Até aqui tudo bem. O problema é o aproveitamento do miolo. Num esquema de Guardiola a bola entra e sai consecutivamente. Tem-se posse de bola onde é mais difícil de jogar e muito mais difícil de defender. Na zona onde só se joga com um toque e com constantes mudanças de posicionamento. Lopetegui aposta mais no passe longo. Para quem duvida trago na imagem uma comparação entre os 'heatmaps' do FCPorto, nos seus melhores jogos da época na Champions, um jogo do Barcelona e um do Guardiola. Reparem como a nossa posse de bola é distinta. É recuada e lateralizada. Já o Barcelona, numa final europeia, apesar de ter estado a ganhar a maior parte do tempo consegue posicionar-se maioritária e consistentemente no meio-campo ofensivo. O miolo é explorado e não sobrevoado. Assim, os problemas surgem de todo lado e não apenas da alas. Estou a imaginar a planificação de qualquer adversário do FCPorto nomeadamente a de Jorge Jesus. Bloco baixo e reforço das alas defensivas. Não será fácil marcar golos mas se o objectivo é não sofrer... A evolução da equipa passará por um melhor aproveitamento do miolo e dos jogadores que melhor decidem nessa zona. Obviamente que estou a falar de Quintero!
Perante isto torna-se mais difícil perceber que eu aqui defenda que Lopetegui deve continuar. De facto eu acho que sim. Por dois motivos. Primeiro porque defendo que os treinadores têm de ter tempo para mostrar valor. É das práticas de gestão que mais aprecio no nosso Presidente. Depois porque me parece que em todos estes aspectos que critico, Lopetegui tem vindo
a evoluir e que ele demonstra capacidade para aprender com erros. A própria equipa demonstrou capacidade de evolução ao longo da temporada tendo sucumbido já perto do final perante uma desvantagem curta de três pontos e perante uma derrota traumática frente a um colosso do futebol mundial que é o Bayern.
Segue-se uma análise aos jogadores.







