Não gosto de Lopetegui!
Antes de pegarem nas tochas e nas forquilhas apresentarei três atenuantes:
1) esta minha avaliação está sujeita a revisões semanais e pode ser que a coisa se inverta;
2) tenho um feitio que já chegou a ser avaliado entre o mau e o 'prefiro a imolação pelo fogo, a aturar este gajo'...
3) não consigo atribuir grandes culpas a Lopetegui por este facto.
Passando à frente as duas primeiras atenuantes e antes de irmos à última, passemos a listar as minhas embirrações:
1) a torre: podia ser um andaime ou até podia sentar-se em cima dos ombros do Rui Barros para ver melhor, mas não deixa de ser um pormenor banal para 'vender' aos adeptos que há métodos inovadores, por pífios que sejam. O facto de Lopetegui o ter pedido como parte da sua revolução na metodologia portista irrita-me.
2) a 'extreme makeover': olhamos para o onze e temos apenas três dos jogadores que eram titulares no início do ano passado: Danilo, Alex e Jackson. A estes acrescentamos Fabiano, Herrera e Maicon que foram ganhando o seu espaço ao longo da época passada e, com boa vontade, Quaresma. Mas cedo se percebeu que a intenção era a da revolução no plantel. Eu sou dos que achava que era possível fazer bem melhor com o plantel do ano passado e foi uma das críticas que apontei a Paulo Fonseca. Por isso, irritou-me ver, no último dia do defeso, duas novas contratações e uma dezena de jogadores a sair por empréstimo. É um símbolo da obsessão que se tinha com o 'mudar tudo porque tudo estava mal'. A 'cerejinha no topo' foi aquela frase após o jogo com o Moreirense. Oliver lesionou-se e por isso precisamos ainda mais de reforços. Faltam médios ofensivos a treinar no Olival...Preferia um treinador que trabalhasse a construção do plantel alheio de ideias pré-concebidas e que tentasse adaptar o seu modelo a um plantel (com retoques), em vez tentar o inverso que é bem mais confortável...
3) o modelo de negócio: Conhecemos o FCPorto. O modelo é simples de descrever e difícil de aplicar: comprar barato e em antecipação; desenvolver competências em equipa, de acordo com os valores FCPorto, estimulando a obecessão por títulos; vender caro. É apenas uma simplificação mas ajuda a perceber que este ano o modelo mudou um pouco. Podemos mudar o mercado alvo passando da Argentina para o Brasil, da Colômbia para o México ou da Liga Portuguesa para a Espanhola. Não podemos é mudar o modelo de negócio só porque tivemos uma época horrível. Por entre a sofreguidão de atender às pretensões de Lopetegui, comprámos jogadores inflacionados pelo seu desempenho e presença no Mundial e disponibilizámo-nos para valorizar ao longo do ano, jogadores jovens de clubes de dimensão superior. Vá lá que obtivemos, em certos casos, opções de compra... Demonstra que o saber negocial ainda está lá, mas custa-me a mudança de paradigma perante um modelo que tão bons resultados tem dado.
4) os espanhóis: Custa-me um onze e um plantel sem portugueses. Mas custa-me muito mais um onze e um plantel sem qualidade. Podiam ser todos da guiné equatorial...(até falavam a mesma lingua do treinador...) Mais uma vez volto à questão do plantel construído nos moldes Lopetegui. Não só muda tudo, como parece que cria concepções e exigências tão específicas de jogadores, que acabamos por ter de lhe dar jogadores que ele conhece ou que já trabalharam com ele. Isto passando ao lado de todo o trabalho dos últimos anos da nossa tão elogiada equipa de scouting e até da formação. Depois embirro a sério com a ideia de que estes jogadores só vieram porque queriam trabalhar com ele. O meu FCPorto não chega para trazer o Messi actual, mas não precisa de Lopetegui para convencer os jogadores que vieram...
5) o Quaresma: Não gosto quando os treinadores se têm de 'pôr em bicos de pés' perante o plantel, sobretudo em termos de autoridade. Detesto vedetismos e é impossível desculpá-los sobretudo em Quaresma, que tanto se prejudicou à custa disso. Mas detesto ainda mais manipuladores. Não é preciso inventar problemas para demonstrar que temos capacidade para os resolver.
6) o Rúben: Será possível criticar a utilização de um talento das escolas do FCPorto, ainda para mais com 17 anos? Não é possível. Mas fico com a sensação de que o miúdo só é opção porque ocorreu uma conjucação irrrepetível de factores que permitiu que ele pudesse, entre lesões de colegas, indefinições de mercado e jogadores ao serviço das Seleções, provar que tem qualidade e características para encaixar na concepção de médio de Lopetegui. Pensemos no caso de Rafa, a título de exemplo, até porque há mais talentos na nossa estrutura de formação. Ficou estabelecido que o Alex precisava de concorrência, mas será que vinha o Jose Angel se o Rafa tem feito a pré-época? Nunca saberemos porque estava no Europeu de sub-19, mas mais uma vez, na dúvida, vamos à base de dados Lopetegui e não à nossa.
Lopetegui faz o que lhe compete de acordo com os limites que lhe estabelecem. Tal facto impede-me de recriminar apenas o treinador por estes erros que lhe aponto e até responsabiliza mais a Direção do FCPorto. E poderão reparar que nem falei sobre as transições defensivas, as variações de centro de jogo, a posse ou até o futebol sem balizas que temos visto ou até na qualidade dos jogadores que entraram com o seu aval. Isso não está aqui em causa. Vamos antes supor que Lopetegui falha. Já sei que é difícil de conceber agora
que estamos inebriados com a ausência de golos sofridos, com os 70% de posse de bola, com os passes do Rúben, com as fintas de Brahimi e com os golos de Jackson,
mas vamos tentar. Se correr mal, na próxima época começamos de novo? Vamos ter de dar sempre estes dois meses de benefício da dúvida aos treinadores? Há dinheiro para outra revolução no plantel? Muitos julgam que Lopetegui tem tudo o que queria e que, por isso, sairá mais responsabilizado pelos resultados. Tenho de concordar mas responsabilizarei ainda mais a estrutura se houver um falhanço.
Escolhi fazer este artigo numa fase tão precoce da época para ir avisando os meus leitores para o facto de que, a dose de embirração que já tenho para com o nosso treinador, poderá toldar um pouco as minhas crónicas no futuro. Assim, já sabem ao que venho e o esquema fica já combinado: eu 'bato' no Lopetegui e os portistas têm carta branca para 'bater' no cronista mal intencionado. E ficamos à vontade! Ainda assim, espero que, no mínimo, aconteça como com o Vitor: levava todas as semanas, mas, no final, levou ele os dois títulos! O que conta é a 'bolinha dentro da baliza' e lá estarei, no Dragão e não só, para festejar quando acontecer.