Fique claro que não está em causa Luís Castro como treinador.
Está em causa o rótulo que lhe aplicaram.
O conceito de treinador interino em futebol é, por si só, um
portador de uma ambiguidade que limita o efeito da ‘chicotada psicológica’. O
treinador de hoje em dia é cada vez mais um gestor de ânimos e de emoções. Essa
gestão vai ganhando cada vez mais preponderância e terreno ao conhecimento táctico e da
preparação física. Como poderemos exigir a um treinador que tire o máximo de
uma equipa em sub-rendimento se não lhe damos legitimidade para tal? Disse-o
aqui: à primeira contrariedade voltaríamos ao mesmo estado em que estávamos com
Paulo Fonseca. Não só se cumpriu como, decorrido o efeito da ‘chicotada’,
conseguimos agravar os problemas, contando desaires nas competições em que ainda
tínhamos aspirações.
Na minha opinião, com a saída de Paulo Fonseca, o ideal seria
planear o resto da época como a pré-temporada de 2014/2015. Não que se baixasse
o nível de exigência. Simplesmente deveríamos definir com quem contávamos para
construir a equipa de 2014/2015, seja no plantel, seja na orientação técnica. A
alternativa era a de apesentar uma solução em que fosse assumido que éramos
candidatos a tudo o ainda houvesse para ganhar, numa solução de curto prazo. Ora,
em nenhum dos casos cabe a solução do treinador interino. Não lhe poderemos
pedir que planeie convenientemente uma época em que não irá participar na
orientação técnica. Basta perceber, a título de exemplo, que os jogadores que
Luís Castro promoveu neste final de época como Reyes, Quintero, etc., poderão
não agradar ao novo treinador. Por outro, lado, não podemos exigir a um
treinador interino que incuta na equipa a ambição e exigência, que permita retirar da
equipa o rendimento máximo e de forma imediata. Até podemos, mas não me parece que
essas expectativas sejam realistas... O problema está no treinador a prazo, seja ele
Luís Castro ou André Villas-Boas. É uma questão de legitimidade perante os adeptos
e perante o próprio plantel.
Com esta solução ficámos a meio do caminho. Por um lado,
demos um sinal à equipa de mudança, mas estabelecemos logo que Luís Castro iria
ser apenas uma ‘pré-mudança’. À primeira contrariedade a equipa voltou a
quebrar. Previsível!
Indiferente à tarefa impossível que tinha em mãos, Luís
Castro procurou preparar a nova época. Criou pontes mais definidas entre a
equipa principal e a equipa B e começou a renovar o onze mostrando aos adeptos
e ao mundo que há ali jogadores que poderão fazer parte do futuro do clube. E
fê-lo tentando enquadrá-los num sistema mais parecido ao anterior, sobretudo no
desenho de meio-campo. Nem todas as opções foram boas, mas percebeu-se a
definição de um rumo e uma ideia de jogo diferente. Não levará uma avaliação
positiva porque acabou por fazer piores resultados que Paulo Fonseca. Mas não
consigo culpá-lo por isso. Valeu mais a ambiguidade da interinidade do que a
objectividade com que ele abordou o desafio.
Tenho pena porque respeito a figura e o treinador. Acho que não teve condições para fazer melhor
e como tal desprezo qualquer crítica às suas capacidades e repugnam-me associações ao
rendimento do projecto ‘Visão 611’. Não é por termos dado um nome ao projecto
que me convencem que havia de facto intenção de revolucionar a nossa abordagem
à formação portista. Ainda assim, a fantástica performance da equipa B deste
ano tem bases no malfadado projecto ‘Visão 611’...
Que fique muitos anos no FCPorto, Prof. Luís Castro!
PS: Este tema foi desenvolvido numa apresentação no âmbito do
III Encontro da Bluegosfera no passado Sábado em Espinho. No entanto, artigo já estava escrito há algum tempo.